Dia das Mães: O papel do Judiciário na realização do sonho da maternidade
História de casal que adotou menino de 11 anos mostra como a atuação da Justiça cearense viabiliza novos laços de afeto e amplia a possibilidade de crianças e adolescentes fora do perfil tradicional terem uma família
Pâmmela Lêmos
Como nasce uma mãe? Ao longo de gerações, muitas meninas foram incentivadas a associar a maternidade a um destino natural das mulheres, nas brincadeiras com bonecas, nas expectativas projetadas sobre o futuro. Hoje, porém, cada vez mais mulheres reconhecem que a maternidade é uma escolha. E, entre aquelas que sonham em ser mães, a via biológica nem sempre é o caminho.
O que seria alternativa para algumas, era concreto no coração de Natássia Guerra, que desde criança compartilhava com a família a vontade de ser mãe por meio da adoção. Há 14 anos, ao iniciar um relacionamento com Bruna Guerra, falou sobre esse objetivo de vida e, aos poucos, ambas passaram a imaginar a chegada desse dia.
O primeiro passo para a realização da maternidade foi dado em 2022, quando o casal procurou o Poder Judiciário do Ceará para iniciar o processo de habilitação para adoção.
POR INTERMÉDIO DA JUSTIÇA
“Acredito que, por volta do fim do ano, a gente enviou a documentação, fizemos o curso e tudo. Quando foi em março de 2023, nós estávamos habilitadas. Como nosso perfil era de um a três anos, passamos bastante tempo na fila até o ano passado”, relembra a enfermeira Natássia Guerra.
Tudo mudou em maio de 2025, após receberem um convite da Seção de Cadastro de Adotantes e Adotandos da Comarca de Fortaleza para uma visita guiada ao Condomínio Espiritual Uirapuru. Na oportunidade, a equipe do Fórum Clóvis Beviláqua (FCB) mediou o contato entre pessoas interessadas em adotar, como Natássia e Bruna, e crianças fora do perfil tradicionalmente procurado.
“A gente até cogitou não ir, porque justamente estava fora da nossa janela, que era uma criança, menino ou menina, que podia vir com doenças infectocontagiosas, branca ou negra, a gente não fazia distinção. Decidimos ir até para ter uma experiência, mas realmente não achávamos que íamos encontrar nosso filho lá. Foi quando vimos um menininho brincando com um brinquedinho de circo. Me aproximei. Depois a Natássia se aproximou. E aí deu ‘match’. A gente achava que era muito romantismo pensar nessa possibilidade de: ‘Ah, vocês vão reconhecer quando for o filho de vocês’. Mas, realmente, não foi diferente. Ele já parecia ser nosso”, conta a fisioterapeuta Bruna Guerra.
“Estávamos aguardando uma criança com outro perfil, mas a gente acabou se apaixonando pelo Miguelzinho, e aí foi amor à primeira vista”, ressalta Natássia. Esse primeiro encontro ocorreu no dia 21 de maio de 2025. Pouco tempo depois, no dia 1º de julho, o casal visitou a instituição de acolhimento na qual vivia Miguel Ângelo, de 11 anos.
“Nosso coração já estava cheio de amor porque a assistente social, anteriormente, falou que conversaria para entender se ele queria. E aí, quando ela foi conversar, falar que tinha um casal interessado nele, ele já perguntou se seríamos nós duas. Isso nos tocou profundamente porque mostrou que foi uma paixão tanto da nossa parte quanto da parte dele”, acrescenta Bruna.
Bruna e Natássia se veem plenamente realizadas e têm muitos planos para o futuro do filho
CONVÍVIO FAMILIAR
No final daquele mesmo mês, elas iniciaram o período de convívio familiar, e Miguel passou a morar com o casal. O processo foi concluído em março deste ano, com a entrega do mandado de adoção, que é a sentença favorável do Judiciário. A partir desse documento, foi requerida uma nova certidão de nascimento do menino, com os nomes das mães e dos avós.
“Nós estamos juntos desde julho do ano passado. Ainda vai fazer um ano. Tudo meio recente. Mas a convivência familiar tem sido muito tranquila, muito leve, porque o Miguel é um príncipe. Ele é uma criança muito doce, muito amável, muito obediente, respeitoso. Faz birra como qualquer criança. Eu acho que não pode fugir muito. Mas até a birra é bonitinha. Então tem sido muito simples a convivência familiar, inclusive com a parte dos avós, dos tios, das primas. Parece que ele sempre esteve conosco”, salienta Natássia.
“Está sendo maravilhoso desde o primeiro momento. Miguel é uma criança muito ativa, então ele gosta muito de coisas ao ar livre: patins, bicicleta, nadar na praia e na piscina. Mas a gente gosta muito de ver filme em família também. Apesar da correria do dia a dia, nossa rotina é muito intensa. Mas, depois que ele chegou, o principal hobby que a gente tem é assistir filme em família”, reforça Bruna.
REALIZADAS
Casadas há nove anos e agora, com Miguel Ângelo, Bruna e Natássia se veem plenamente realizadas. Elas têm muitos planos para o futuro do filho, se enchem de orgulho ao falar de cada conquista dele e transbordam amor ao se depararem com as demonstrações de carinho.
“Houve uma reunião no colégio, e vimos o diário. Tinha um texto do Dia da Mulher no qual ele falava que as mulheres mais importantes na vida dele somos nós. A gente já se derreteu bastante. Depois ele falou que nós éramos fundamentais, a fortaleza dele, mais lindas que as princesas da Disney e que ele nos amava muito. Nosso filho é realmente um presente de Deus”, comemora Bruna.
AS MELHORES MÃES DO MUNDO
Às vésperas de completar 12 anos, no próximo dia 16, Miguel Ângelo Guerra considera que Bruna e Natássia são igualmente um presente. “Vocês são as melhores mães do mundo. Amo vocês. Feliz Dia das Mães!”, deseja.
A história da família Guerra mostra que uma mãe nasce a qualquer tempo. Não apenas na fecundação, com o bebê no ventre, nem mesmo somente no parto, após ter a(o) neném no colo. Não nasce só do laço de sangue.
Uma mãe nasce também através da adoção, do amor que pode ocorrer à primeira vista, independente de idade, raça, cor, mas que se constrói e se fortalece com o tempo. Muitas vezes basta estar aberta ao primeiro encontro.
SAIBA MAIS
Para tornar-se pretendente à adoção de criança ou adolescente, é necessário apresentar toda a documentação solicitada no Fórum da cidade onde se reside. Em seguida, os autos são encaminhados ao Ministério Público. Durante o procedimento, quem tiver interesse em adotar deve participar de todas as etapas do curso psicossocial e jurídico. Após confirmada a participação na preparação, são realizadas avaliações por meio de entrevistas e visitas.
Após parecer favorável do Ministério Público acerca do relatório psicossocial, o caso é enviado para avaliação de uma juíza ou de um juiz. Tendo o pedido deferido, as pessoas requerentes entram na fila para ingressar no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), devendo aguardar a vinculação à criança ou adolescente que apresente o perfil indicado previamente.
Para saber mais sobre o passo a passo da habilitação para adoção, clique AQUI.